O que ensinam para você na escola, Hans-Thomas?
- perguntou meu pai.
- A ficar sentado na carteira sem perguntar nada, respondi. - E está aí uma coisa tão difícil que a gente precisa de anos para aprender.
- Entendi... mas você acha que teria ficado sentado sem perguntar nada se o seu professor tivesse dado uma aula sobre as hidrovias da Europa?
- Você sabe que me interesso pelo universo, não sabe, Hans-Thomas? Interesso-me por planetas, principalmente por planetas vivos.
Não respondi. Nós dois sabíamos que aquele era um tema pelo qual ele se interessava muito. Não obtendo resposta, ele prosseguiu:
- Você sabia que acabaram de descobrir um planeta cheio de mistérios, habitado por alguns milhões de seres inteligentes, que andam sobre duas pernas e vêem o seu planeta usando duas lentes vivas?
Tive de admitir que aquilo era novidade para mim.
Esse pequeno planeta é unido por uma complicada rede de vias, onde esses sujeitos inteligentes se locomovem em máquinas coloridas.
- É mesmo?
- Yes, sir! E sabe que os misteriosos habitantes desse planeta chegaram mesmo a construir edifícios enormes, alguns com mais de cem andares? E que embaixo desses prédios escavaram longos túneis por onde máquinas elétricas correm sobre trilhos?
- Você tem certeza?
- Tenho sim.
- Mas como é que eu nunca ouvi falar desse planeta?
- Bem - explicou meu pai. - Em primeiro lugar porque ele foi descoberto só muito recentemente; em segundo, porque temo que ninguém além de mim o conheça.
- Onde fica esse planeta?
Nesse momento meu pai pisou no breque e desviou para o acostamento.
- Aqui mesmo! -disse ele, e bateu com a palma da mão no painel de instrumentos do carro. - Este é o planeta misterioso, Hans-Thomas. E nós somos dois desses sujeitos inteligentes, dois sujeitos que, neste exato momento, estão rodando pelas estradas da vida num Fiat vermelho!
Por alguns segundos fiquei amuado por ele ter me pregado uma peça. Entendi, então, que só estava tentando me dizer o quanto é incrível este mundo em que vivemos.
Eu o perdoei imediatamente.
-As pessoas ficariam malucas se os astronautas descobrissem um outro planeta vivo - disse meu pai, para terminar. - Pena que o seu próprio planeta não consiga tirá-las dos eixos...
"Dia do Curinga"